Wednesday, August 07, 2013
Lirica
O chapéu na cabeça e o gosto dela
eu levo prá longe, prá longe eu vou.
No parapeito, lá está ela
eu levo as palavras que ela me falou.
O trem na colina, apita: é hora!
Vamu, que vamu. Vamu agora!
Um gole pra aguentar o baque!
Um cigarro! Ela que fique
Eu vou carpir o tempo todo, amor!
Vou carpir as flores que você deixou.
O mato cheiroso da estação
rima com ela até no "não"
Ela disse o seu 'assim seja' duvidando
eu não volto nem com ela chorando.
Eu vou carpir a vida toda, amor
eu vou carpir as flores que você deixou.
A máquina trava no meu intestino.
Ela não veio nem acenar.
Pois bem! Que se faça o destino!
Ela que fique! Ela que se vá!
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Ela
O nome dela, os olhos lindos.
Ela dormindo é tão parecida comigo!
Atarracada, solitária, moribunda.
Tosse-cachorro, olhos vermelhos.
O lado dela é o lado de cá de mim.
Vou lá e faço-lhe uma carícia...
( Mas minha coragem é uma noz- tamanho e textura)
Se ela aceita o meu cuidado
sem pergunta e sem resposta
eu passo lá e dou-lhe um beijo
será o grande amor da minha vida!
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A um (des) conhecido
Quando ele dobrar a esquina,
saindo do infinito que há depois das curvas,
ele estará já pronto para crescer comigo?
Nariz e boca...
Mãos e pés grandes, desproporcionais.
Espero triste e aflita
espero crente que ele virá.
Já tirei todos os espelhos da avenida
e a esquinas estão vazias.
Ele não tem pressa e pende
fruto adocicado da macieira...
Quando ele chegar
o que será de mim?
Talvez chova ao entardecer e a cor
do céu me confunda.
Talvez caia uma neve morna
um tapete de folhas se quede solidário.
Espero com intenção de paciência,
respirando...
um abraço que ele
e eu
e as cores todas
viverão
(2000)
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Sobre Charles
O Charles que nunca beija,
hoje acordou com a língua entre os meus dentes.
O Charles que nunca amou,
acordou com o corpo dentro do meu.
Ele não sabia,
mas eu já o havia sintetizado em mim.
Meu ventre dilatou-se para recebê-lo
e esperá-lo.
Não importa a espera e a ocasião.
As ruínas do corpo dele ainda ardem
Deus, como ardem...
A voz dele ainda vem em ondas, perturbando meu estômago.
Provoca-me o vômito
e azeda minha boca.
As ruínas do sono dele,
engalfinham-se em demônios,
entram pelos meus ouvidos.
Gosto verdadeiro de vácuo
cheiro precioso de nada..
Ah! Meu ventre não aguenta,
tive que parí-lo...
Charles
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Caneta
A boca da musa na minha garganta. Hematófoga.
Uma legião de seres, olhos atentos no papel.
Vermelho é o tudo, ao contrário do que eu quero.
Mas tem que ser assim, porque assim é desde quando há de ser.
Nem relógio, nem parede, nem relógio de parede
que me salve.
A legião de seres se perpetua.
Não espero nada,
que ela se sacie.
E que minha mão não saia do esquife-linha,
submeta-se...
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Poesinha
Trata-se de poesia
não precisa de dicionário porque é de "faz de conta".
Todas as palavras são inventadas
e também a tinta e o papel.
É uma poesia da carochinha
e lembra um beija-flor miúdo que sequestrei quando criança.
Não, ela não nasceu para a Academia,
está aqui só para me lembrar...
É só uma poesinha
e tem um quê de "ciranda-cirandinha"
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